Histórias do Batalhão
 
 
 
 
 

Numa manhã ensolarada d´Africa, ao entrar nas minhas instalações (armazém do material de aquartelamento), que me foram facilitadas pelo nosso Furriel Eugénio Ramos, reparei que o meu chicote de rabo de hipopótamo. (guardo-o religiosamente), tinha desaparecido da parede á cabeceira da cama.

Após várias tentativas para o encontrar, lá o fui descobrir entre a grade da cama e a parede, sem ter caído completamente ao chão, o que me dificultou achá-lo. Pois bem, seguidamente o que pensei eu fazer? Nós tínhamos nesse armazém um nativo lá do sítio, chamado Jo Fox, o qual fazia a limpeza do mesmo a troco dumas ”crôitas” para as garrafitas do brandy Constantino de que ele tanto gostava. Resolvi chamá-lo e testar a sua inteligência pois, não sei porquê, não via nele quaisquer sinais de esperteza nem de desenvolvimento intelectual.

Devo dizer, antes de prosseguir com a história, que nada me move contra as pessoas de côr, uma vez que, na nossa espécie ou raça-como queiram- também há idiotas chapados!


Chamei o nosso amigo Fox e, quando ele se aproximou, perguntei-lhe exibindo um semblante sério;

- Fox!, Tu sabes que eu tinha ali, naquela parede, por cima da cama, um chicote, não sabes?!

-“Fox sabê sim, seu Cádoso!”

- Então se sabes, tu que fazes a limpeza aqui no armazém, diz-me para onde foi o raio do chicote?!

-“Tchii, seu Cádoso, Fox não sabe, jura que não sabes, pá!    (e sem mais nem menos desatou a chorar)

- Vá lá, Fox, faz um esforço e tenta lembrar-te. Foste tu que o tiraste? Se foste diz a verdade que  ninguém te faz mal, pá!

-“Seu Cádoso, Fox não sabes mesmo, jura seu Cádoso, jura pus mulhié que não sabes mesmo!”


-Pronto está bem pá, não sabes não sabes! Mas vou-te já dizer uma coisa, se o chicote não aparecer, levas com ele, garanto-te que levas! Podes  ir embora! Vai á tua vida mas já sabes, levas com o chicote se ele não aparecer!

Lá foi o pobre do Fox, lavado em lágrimas, apregoando aos 4 ventos que não sabia do chicote, acabando por desaparecer na sanzala, muito abatido.


No final do dia, chamei de novo o nosso amigo, o bom do Jo Fox e, na presença do Cabo Martins e não sei se também do Furriel Ramos, ambos responsáveis pelas instalações, perguntei de novo;

- Então Fox, já descobriste o chicote?   Atirei, muito zangado!

- “Não seu Cádoso, Fox não descobriu, nada! Não bata, seu Cádoso, não bates no Fox, pá! Fox não sabes de     nada!”

-Quem não sabe sou eu, eu é que não sei nem quero saber, quero é o chicote e, como ele não aparece, vais levar com ele! Anda cá!!!!

E o pobre homem, como que sentindo já as chicotadas que porventura outrora alguém lhas tivesse dado, ajoelhou-se a meus pés e, agarrando-me as mãos, implorou por entre lágrimas de desespero

- “Oh, seu Cádoso, não bate no Fox não seu Cádoso?! Fox é amigo, olha eu faz os limpeza e não qué   “lhibongo”(dinheiro em Luchaze!), tá bem seu Cádoso?!


Confesso que quem merecia as chicotadas era eu, por tudo aquilo por que o Fox estava a passar pois, ao querer testar o seu grau de inteligência, sem querer, estava a humilhá-lo. Arrependido por tudo isto, levantei-o e disse-lhe, já a rir;

- Oh Fox, então tu não vez, seu “carvalho” , que não podes levar com o chicote se ele não aparecer?! Se eu não tenho o chicote, como é que te posso dar com ele, seu morcãozola?!

Levantando-se de repente, como se tivesse molas debaixo dos pés, saltou, riu, dançou e, abraçando-se a mim disse-me meio embasbacado

-“Tchii, seu Cádoso, pois é! Fox és “matumbo”, matumbo mêmo! Não tem nenhum esperto nos cabeça, pô!”

-Fox, desculpa esta brincadeira , o chicote apareceu, está ali entalado entre a cama e a parede. Foi o preguinho que caíu e o chicote tombou também, percebeste?

Lá foi ele ver o chicote. Pegou nele, riu-se, foi buscar o martelo e pô-lo no sítio.

-“Prontos”, seu Cádoso, chicote está nos sítio! Seu Cádoso, dá dois e quinhento pa Fox comprar bagaço?

-Tá bem, eu dou, mas primeiro vamos á cantina comer qualquer coisa, pago eu, tá bem?!... …


Pronto, mais uma história real dos tempos vividos em Cangamba, terra do fim do mundo, mas que me deixa saudades. Era mais novo, era um jovem ou melhor, éramos uns jovens. ! ! !


Mário Cardoso - CCS

58 - O Chicote
 
 

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